As mulheres de Betânia

A esperança é, antes, uma postura de vida, um modo de olhar a realidade capaz de perscrutar o que está para além dela, uma disponibilidade radical de acolhimento da realidade em devir de par com uma cumplicidade de fazer acontecer o melhor.

Manuela Silva
Le Repas chez Simon, Philippe Lejeune, 1950

Ao contrário dos sinópticos onde é Pedro a assumir o primado da confissão da fé, no evangelho de João a profissão de fé cristológica é feita por mulheres. Entre estas destaca-se Marta de Betânia no diálogo que estabelece com Jesus depois da morte de Lázaro, ao afirmar: «Eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo» (Jo 11, 25-27). O reconhecimento de Jesus como o ungido de Deus na voz de Marta, é seguido pelo gesto de unção de Maria, sua irmã, ao quebrar «um frasco de nardo puro» aos pés do Mestre, para perplexidade dos discípulos presentes (Jo 12, 1-8).

Na história do cristianismo estas duas irmãs foram consideradas como modelos opostos da vivência crente, na medida em que cada uma delas surgia associada a uma tipologia distinta do agir, contrapondo a acção e a contemplação, vazada na célebre disputa em torno de quem «tomou a melhor parte» (Lc 10, 38-42). Todavia, no nosso presente, longe do panegirico de um modelo de feminilidade servil, Marta e Maria de Betânia figuram de forma complementar, não só como oportunidade para uma aproximação mais aturada daquilo que seria o lugar das mulheres nas comunidades do cristianismo antigo, mas, também, como configuração de um paradigma comunitário como convite ao exercício de uma acção contemplativa sobre o mundo.

Em advento, ao pensar nas mulheres de Betânia, seria importante fazer memória das reflexões de Manuela Silva (fundadora da Fundação Betânia) sobre a segunda virtude como força motriz da acção: «A esperança não é um sentimento vago, ocasional, pontual […]. A esperança é, antes, uma postura de vida, um modo de olhar a realidade capaz de perscrutar o que está para além dela, uma disponibilidade radical de acolhimento da realidade em devir de par com uma cumplicidade de fazer acontecer o melhor. […]. No limite, a esperança é uma sabedoria de vida, que convive com a utopia dos horizontes largos e a concretude dos limites e fragilidades da condição humana, numa saudável e fecunda dialética.»

Nas palavras e nos gestos de Marta e de Maria podemos tocar a convivência da «utopia dos horizontes largos» e a «concretude dos limites e fragilidades da condição humana», inerentes à sabedoria da esperança de que nos fala Manuela Silva. Com efeito, diante da morte do irmão e em face à ausência iminente do Mestre, a esperança ergue-se na vida daquelas mulheres, não como um romantismo onírico ou paliativo, mas como «postura de vida»: a par de uma «cumplicidade de fazer acontecer o melhor», a esperança diz-se na disponibilidade de acolhimento da história na sua inteireza, mesmo que mortal.

Inesperadamente, às portas do Natal de Jesus as mulheres de Betânia desafiam-nos a superar o fatalismo das nossas desilusões, dos nossos dias sombrios, dos pedaços de vida a contraluz, e a decifrar a espera e a esperança que nos habitam como «um modo de olhar a realidade capaz de perscrutar o que está para além dela». Porque, afinal, é no interstício entre a utopia e a vulnerabilidade de que somos feitos que a espera urde a esperança e se abre à Promessa, recriando o advir. Só nessa medida conseguimos confessar como Daniel Faria: «O meu projecto de morrer é o meu ofício/Esperar é um modo de chegares/Um modo de te amar dentro do tempo».

Pedro J. Silva Rei
Música: O quam mirabilis est (Antífona), de Hildegard of Bingen.