[…] aqui está a minha vida.
pronta para ser dada.
Vida que não se guarda,
nem se esquiva, assustada.
Vida sempre ao serviço
da vida. […]
Tiago de Melo
“começou a lavar os pés aos discípulos”
Evangelho segundo de São João 13,1-15
Antes da festa da Páscoa, Jesus soube que chegara a sua hora para sair deste mundo para o Pai e, tendo amado os seus neste mundo, amou-os até ao fim. Decorrendo o jantar; e já tendo o diabo lançado a intenção de o trair no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes; e sabendo Jesus que tudo o Pai lhe dera para as mãos e que proviera de Deus e que para Deus volta <agora>, levanta-se do jantar e despe as roupas e, pegando numa toalha, atou-a à cintura. De seguida derrama água na bacia e começou a lavar os pés dos discípulos e a secá-los com a toalha que atara à cintura. Chega então a Simão Pedro. Este diz-lhe: “Senhor, tu lavas-me os pés?” Jesus respondeu e disse-lhe: “O que eu faço tu ainda não compreendes; perceberás depois.” Diz-lhe Pedro: “não me lavarás os pés, <jamais> até à eternidade.” Jesus respondeu-lhe: “A não ser que eu te lave, não tens lugar comigo.” Diz-lhe Simão Pedro: “Senhor, não me laves só os pés, mas as mãos e a cabeça.” Diz-lhe Jesus: “Quem tomou banho não precisa, tirando os pés, de se lavar, pois todo ele está limpo. E vós estais limpos, ainda que não todos.” Pois sabia quem o estava a trair. Por isso disse que “não estais todos limpos”. Depois de ter lavado os pés deles, pegou na sua roupa e voltou a reclinar-se <à mesa>. Disse-lhes: “Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-me “o Mestre” e “o Senhor” e dizeis bem. Sou, de facto. Se eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos um exemplo para que, tal como eu fiz, façais vós também.
Tradução de Frederico Lourenço
Jesus abandona uma posição de poder para se colocar ao serviço do outro: coloca-o em posição de soberano […]. Jesus despoja-se de qualquer desejo de poder sobre o outro, depondo as vestes. O ato abre um novo espaço entre os seres em que nos pomos a existir na liberdade dando a liberdade ao outro para que ele seja sujeito. É o espaço da gratuidade. O espaço de Deus.
[…] A partilha do pão no dia da ceia deve compreender-se como partilha do poder que coloca em presença uma outra realidade, uma outra relação entre os seres humanos. É fundamentalmente uma morte a si próprio, uma morte a uma cultura e ao mesmo tempo a abertura dum espaço em que a novidade é possível.
José Augusto Mourão
Oração
Dai-me, Senhor, uma boa digestão,
mas também qualquer coisa para digerir.
Concede-me a saúde do corpo e o necessário
bom humor para mantê-la.
Dai-me, Senhor, uma alma simples,
que saiba aproveitar tudo o que é bom
e não se assuste demasiado perante o mal,
mas encontre maneira de recolocar
as coisas no lugar devido.
Dai-me uma alma que não fique refém do tédio
nem de resmunguices, impaciências ou lamentações,
e não permitais que me atormente
para lá do razoável
com essa coisa turbulenta chamada “eu”.
Dai-me, Senhor, um sentido de humor apurado
e a capacidade de receber a sorrir o que aí vem,
vivendo o que me cabe com alegria
e partilhando-a com os outros
sem reservas
Ámen.
São Tomás More (adapt.)
Proposta adaptada a partir do caminho quaresmal elaborado e difundido pela Coordenação da REDE Cuidar a Casa Comum, com a colaboração do grupo Cuidar da Casa Comum em Santa Isabel e da Casa Velha.
*imagem de Sieger Köder | http://www.jovenesdehonianos.org/lavatoriopieskoder.html.