Esperamos e sonhamos o Natal do mundo, razão por que nasceu Jesus, encarnando criativamente a História da nossa humanidade.
“O Senhor vos faça crescer e abundar na caridade uns para com os outros e para com todos, tal como nós a temos tido para convosco.” (1 Ts 3,12)
A Inês Valador conta como “entra nesta aventura”, sonhando o Natal do mundo!
No dia 14 de Maio deste ano, entrei numa nova aventura: trabalhar num centro local de apoio a migrantes. Desde então, os meus dias têm sido passados
a tentar comunicar com o inglês mais básico possível,
a gerir expectativas de quem chega,
a confortar quem recebe notícias de que não estava à espera,
a criar estofo emocional para lidar com histórias não tão pacíficas como a minha,
e, muitas vezes, a ser o único espaço seguro que a pessoa que ali está tem.
Durante estes meus 6 meses enquanto mediadora, tenho lidado com histórias de luta, esperança, procura, dor, amor, determinação, aprendizagem, inspiração, mudança.
Podia falar sobre a história da Eracema, que perdeu dois filhos num acidente de carro no seu país, Angola, e se mudou para Portugal com o seu marido porque não conseguia viver um dia a dia onde se cruzasse com tais memórias constantemente.
Podia contar-vos sobre a Geetanjali e o Sunil, um jovem casal indiano que imigrou para Portugal no início do ano, deixando os seus filhos na Índia. Querem criar condições de vida estáveis para, depois, os trazerem para junto de si. Há cerca de uma semana, foi recusada uma oportunidade profissional à Geetanjali por não reunir as condições legais para tal. Depois de a informarmos, no dia seguinte, chegou ao pé de mim com uma frase traduzida para português no Google Tradutor “O que está errado em mim?”. “Nada, Geetanjali. Não está nada errado em ti. Estamos cá para ti.” Disse-lhe, e abracei-a, tentando perceber o que estaria a sentir naquele momento aquela jovem da minha idade, mas que já tinha vivido tanto mais do que eu.
Podia ainda apresentar-vos à Poonam: uma mulher na casa dos 30 anos, 15 dos quais foram passados numa relação onde foi vítima de violência doméstica. Na primeira vez que a vi, apareceu à porta do escritório dizendo que precisava de ir ao hospital, pois tinha pedras nos rins. Não eram pedras nos rins, eram costelas partidas. Recentemente, fez a segunda queixa na GNR com uma colega que tem acompanhado todo o processo. Dentro do ciclo da violência, a Poonam chegou a um ponto em que decidiu quebrar o padrão, principalmente o padrão esperado de uma mulher indiana: não se calou. Vejo-a todos os dias a andar quilómetros a pé para levar as filhas à escola, vindo depois a correr para as nossas aulas de português.
Nestes últimos meses, tenho sido, em conjunto com as minhas colegas, a única palavra amiga de muitas pessoas, a única possibilidade de conversa, o único apoio.
Tenho recebido “chapadas de realidade”, daquelas que nos deixam coladas ao chão.
Muitas vezes questiono-me se teria a coragem da Geetanjali, da Eracema, da Poonam ou de tantas outras e outros, para mudar em prol de algo melhor, deixando tantas coisas que me eram cruciais para trás. Não sei se teria. Mas sei que me sinto feliz quando atendo o telefone e sabem que é a Inês que está do outro lado da linha.
Pois depende de nós
Que a esperança não minta no mundo.
É preciso dizer que depende de nós
Que o mais não falte ao menos,
Que o infinitamente mais não falte ao infinitamente menos,
Que o infinitamente tudo não falte ao infinitamente nada.
Depende de nós que o infinito não falte ao finito.
Que o perfeito não falte ao imperfeito.
É uma aposta nossa, não pode ser sem nós,
pois depende de nós,
Que ao grande não falte o pequeno,
Que ao todo não falte uma parte,
Que ao infinitamente grande não falte
o infinitamente pequeno,
Que ao eterno não falte o perecível.
É a nós que cabe (o que parece irrisório) o dever
do Criador não faltar à sua criatura.
– Charles Peguy
«Naqueles dias, naquele tempo, farei germinar para David um rebento de justiça que exercerá o direito e a justiça na terra. Naqueles dias, o reino de Judá será salvo e Jerusalém viverá em segurança. Este é o nome que chamarão à cidade: “O Senhor é a nossa justiça.”» (Jr 33,14-16)