Advento 2024 | Terceira semana

Esperamos e sonhamos o Natal do Mundo, razão por que nasceu Jesus, encarnando criativamente a História da nossa humanidade.

“Assim se gera a maior ameaça, que «é o pragmatismo cinzento da vida quotidiana da Igreja, no qual, aparentemente tudo procede dentro da normalidade, mas na realidade a fé vai-se deteriorando e degenerando na mesquinhez». Desenvolve-se a psicologia do túmulo, que pouco a pouco, transforma os cristãos em múmias de museu. Desiludidos com a realidade, com a Igreja ou consigo mesmos, vivem constantemente tentados a apegar-se a uma tristeza melada, sem esperança, que se apodera do coração como «o mais precioso elixir do demónio». Chamados para iluminar e comunicar vida, acabam por se deixar cativar por coisas que só geram escuridão e cansaço interior e corroem o dinamismo apostólico.
Por tudo isto, permiti que insista:

Não deixemos que nos roubem a Alegria da evangelização!”

Alegria do Evangelho (83) – Papa Francisco

A Helena Marujo, que foi avó há pouco tempo, fala-nos da Alegria, tão ao jeito deste III Domingo do Advento – Domingo de uma Alegria antecipada, porque o Natal de Jesus Cristo está próximo. Natal do mundo!

Neste mundo carregado de razões robustas para o desespero, a alegria é uma coragem obstinada que não devemos perder, um vulcão de esperança que não podemos ceder ao cinismo, à culpa, à descrença total ou a qualquer outra fantasia de impotência.

Toda a tristeza é, a um nível elementar abaixo das circunstâncias que a vida nos impõe, um ato de esquecimento da nossa ligação à vida – esquecemos que estamos vinculados uns aos outros, à grande natureza vital, a Deus.

Toda a alegria é, assim, o ato de recordar o que dá vida – a mão estendida para a reconexão, para o contacto feliz entre alteridades, um elo iluminado para o transcendente.

Ah…a alegria é grande demais para ser silenciada, murmurada, encaixotada em impossibilidades ou desesperos. Mesmo e precisamente quando eles são opressivos e cruéis.

Logo após ter vivido a segunda guerra mundial na sua vida, René Magritte escreveu: “A experiência do conflito e uma carga grande de sofrimento ensinaram-me que o que importa acima de tudo é celebrar a alegria”.

Para ele, a vida será desperdiçada quando a tornamos mais aterradora. E tantas vezes nos deixamos levar por micro-terrores que nos esganam a imaginação, o possível, o E se…que a alegria nos traz.

Quando a guerra interior se trava, quando as sombras nos esmagam, como acontece em todas as vidas, a prática da alegria, a coragem da alegria, torna-se a nossa mais poderosa fronteira de resistência.

Na atenção e celebração das delícias, dos encantamentos da vida, desse espanto pueril pela vida que vibra, aí está a alegria.

(Delight, delícia, significa “saído da luz”, partilhando raízes etimológicas com delicioso e deleite). Aí está a atração, o encanto, o ato de cativar, que a alegria nos dá.

A propósito Ross Gay escreveu, no seu livro Inciting Joy:

“O meu palpite é que a alegria é uma brasa ou um precursor de uma solidariedade selvagem e imprevisível, transgressiva e sem limites. E que essa solidariedade pode incitar a mais alegria. Que pode incitar a mais solidariedade. E assim por diante. O meu palpite é que a alegria, emergindo da nossa tristeza comum – o que não significa necessariamente que tenhamos as mesmas tristezas, mas que, em comum, sofremos – pode aproximar-nos. Pode despolarizar-nos e desatomizar-nos o suficiente para podermos considerar o que, em comum, amamos. E, apesar de, muitas vezes, estar na moda (e ser também um grande negócio) pensar no que odiamos em comum, reparar no que amamos em comum e pensá-lo pode ajudar-nos a sobreviver. É por isso que penso na alegria, que nos leva a amar, como sendo uma prática de sobrevivência.”

Talvez o Natal do Menino, este nascer e renascer eterno e transgressor, seja esta Ode imensa, infinita e incurável, às delícias que acontecem, apesar e para além de tudo o que é oco e desencantado, destrutivo e esmagador – e o nascimento do nosso Deus seja esse Cântico maior à alegria, que nos leva à bênção maior: o obstinado amor.

– Helena Águeda Marujo

A Alegria é uma estrada

Faz-nos percorrer, Senhor, a estrada que conduz à alegria.

No simples, no próximo, no escondido da vida, ajuda-nos a ouvir a pequena sinfonia da alegria e a abrir com solenidade para ela as portas indecisas do tempo que corre.

Só quem saboreia as pequenas alegrias se dá verdadeiramente conta das grandes.

Só quem rejubila com a alegria dos outros percebe que ela é, em cada um de nós, uma onda puríssima que se expande.

Ajuda-nos a inscrever a alegria como tarefa e, ao mesmo tempo, a mantermo-nos disponíveis para o modo surpreendente e gratuito da sua vinda.

– Tolentino Mendonça (in “Rezar de Olhos Abertos”)

“Alegrai-vos sempre no Senhor. Novamente vos digo: alegrai-vos. Seja de todos conhecida a vossa bondade. O Senhor está próximo. Não vos inquieteis com coisa alguma; mas em todas as circunstâncias, apresentai os vossos pedidos diante de Deus, com orações, súplicas e acções de graças. E a paz de Deus, que está acima de toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.” (Fl 4,4-7)

Foto: Helena Valentim