Advento 2024 | Quarta semana

Esperamos e sonhamos o Natal do Mundo, razão por que nasceu Jesus, encarnando criativamente a História da nossa humanidade.

“Esta será hoje a nossa primeira ascese, o limiar abaixo do qual a nossa fé não pode descer – viver plenamente o próprio presente, habitar criativamente o próprio lugar, realizando, assim, todas as nossas capacidades humanas. Sem fugas. Sem desculpas. Hoje, mais do que nunca, percebemos que a criação e a existência nos são realmente confiadas. Pela disponibilidade dos nossos sentidos, pela criatividade da nossa inteligência, pela obra das nossas mãos, poderemos fazer de maneira que o nosso tempo dê à luz. Como gesto de amor. Como acto de criação. Não sozinhos, mas com outros que, sendo por vezes, tão diferentes, tão estranhos, vivem igualmente, entregues à mesma graça e à igual tarefa que a vida é.”

Padre José Frazão (in “A Fé Vive de Afecto”)

A Cristina dos Anjos – membro do Graal no Brasil, esteve presente em Roma, em todas as assembleias do Sínodo, com direito a voto e, é dessa sua presença e desse privilégio que ela nos fala, neste tempo do Advento, tão especial!

Com a minha mãe, uma grande liderança comunitária, aprendi que nada acontece por acaso na nossa vida, Deus sempre tem um plano para cada pessoa e para a humanidade. Acreditar nisso não nos dá um livre arbítrio, mas nos coloca em marcha, atentos e atentas aos sinais, sabendo que há uma responsabilidade nossa na construção e vivência desse mistério.

O convite para participar do sínodo da sinodalidade foi um presente lindo e inesperado de Deus! Foi uma honra ser uma, das duas mulheres da Igreja do Brasil, a fazer parte desse momento histórico. Pela primeira vez, as mulheres participaram com voz e voto de uma assembleia mundial ordinária dos bispos. Evidentemente, em uma igreja milenar e tão diversa, os frutos desse processo sinodal não serão imediatos e, talvez, nem implementados em sua totalidade. No entanto, é possível afirmar: vivemos um tempo de advento em nossa igreja, onde o novo está por nascer. Já é possível ver e sentir os seus sinais! No encerramento do sínodo, em outubro deste ano, 2024, o Papa Francisco nos disse em sua homilia: “Todavia, perante as interrogações dos homens e mulheres de hoje, os desafios do nosso tempo, as urgências da evangelização e as muitas feridas que afligem a humanidade, irmãs e irmãos, não podemos ficar sentados. Uma Igreja sentada, que quase sem se aperceber se afasta da vida e se confina a si mesma à margem da realidade, é uma Igreja que corre o risco de continuar na cegueira e de se acomodar no seu próprio desconforto”. Nesse sentido, é preciso rever práticas e posturas, é necessário nos abrirmos para o novo se quisermos, de facto, sermos a Igreja de Jesus Cristo.

Estamos na última semana do advento, sabemos que a promessa de Deus se concretiza em Jesus, que, de novo e de novo, vem ao nosso encontro, oportunizando-nos renovar a nossa aliança com Ele. Não temos razões para vivermos paralisados/as pelo medo e pela angústia, mesmo quando a violência, a injustiça, o machismo e o clericalismo parecem controlar e criar obstáculos no nosso caminhar. É Deus quem conduz a história!

– Cristina dos Anjos

“Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se apressadamente para a montanha, em direcção a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino exultou-lhe no seio. Isabel ficou cheia do Espírito Santo e exclamou em alta voz: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. (…) Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor.”

(Lc 1,39-45)

Precisamos de uma esperança que se propague. Precisamos de lugares límpidos, fora e dentro de nós.

A nossa existência é, do princípio ao fim, o resultado de uma aprendizagem da esperança, e só ela é capaz de dialogar com o futuro e de o aproximar.

Não te peço que pares o tempo na minha imagem predilecta, mas que ensines os meus olhos a encarar cada tempo como uma oportunidade.

Tolentino Mendonça ( in “A Vida Em Nós”)

Foto: Isaura Feiteira