No dia 1 de Novembro, o Graal celebrou, na Golegã, o seu aniversário, fazendo memória do que nos congrega e faz pertencer e de todas as que já partiram.

Neste dia de Todas as Santas e Santos, celebrámos, também, o compromisso e acolhimento da Ana, da Inês e da Wieteke que se juntam a esta roda que conta já com mais de 100 anos.

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Quem somos e de onde viemos?

Somos as que aqui estamos e somos todas as outras que não estão.

Viemos daqui e dali, de longe e de perto. Viemos das dores e das alegrias do dia a dia, das tensões de toda a ordem. Viemos da dor dos nossos lutos – e da convicção de que eles nos abrem a outra dimensão da vida. Viemos da preocupação com esta casa, tão central para todas. Viemos da preocupação com as que adoecem e envelhecem na graça de Deus. Viemos da gratidão de quem cuida e se faz presente, nos momentos mais complicados. Viemos da aflição de não haver dinheiro para os projetos e do impacto que isso tem na nossa ação e na vida de algumas de nós. Viemos dos nossos silêncios e das nossas ausências, dos nossos esforços e dos nossos entusiasmos. Viemos da grande alegria das que se juntam no caminhar. Viemos da emoção dos momentos vividos em conjunto e das histórias partilhadas. Viemos das responsabilidades que nos pesam e nos alargam, viemos de ver crescer a corrente, aqui e ali, no movimento e nas margens. Viemos de nos multiplicarmos e de nos desdobrarmos, às vezes sem jeito, mas sempre à procura de um jeito outro.

Somos o futuro das que nos precederam. Somos o passado das que hão de vir. Somos o presente de nós próprias, em cada instante – “quando ainda não foi [completamente] revelado o que seremos”.

Somos, aqui e agora, a geração das que procuram o rosto da plenitude, a forma do reino que há de vir, do reino que há de ser. Somos as que procuramos as perguntas que importa fazer. Somos as que não dependemos de conclusões, mas nos envolvemos no processo. Perguntamos e perguntamos e perguntamos. Somos guardiãs do Graal porque não o encontrámos, porque não o encontramos nunca definitivamente.

Procuramos “um novo céu e uma nova terra”, por dentro dos contornos do tempo em que nos foi dado viver – tempo de guerra, de pobreza, de insustentabilidade, de desumanização. Somos ambiciosas, ousamos sonhar “fazer novas todas as coisas”. Somos ousadas e criativas – das perguntas fazemos sonho, projeto, ação coletiva. Sabemos que o caminho não é linear, que havemos de tropeçar, hesitar, cair, avançar, insistir, persistir, resistir. E talvez possamos um dia ser bem-aventuradas.

Sabemos que não somos nada isoladamente. Sabemos que não caminhamos sozinhas e queremos apoiar-nos reciprocamente, inventar o caminho em conjunto. Solidarizamo-nos com quem como nós procura – com quem pergunta de outra forma, com outro jeito, noutro contexto.

Maria Antónia Coutinho, Centro do Graal da Golegã, 2025