Foi com alegria, esperança e empenho na construção coletiva que se viveu o Encontro Nacional do Banco de Tempo, realizado no dia 16 de junho, na Biblioteca de Belém.
Mais de 40 pessoas reservaram este dia para participar, muitas delas fazendo viagens longas a partir de Guimarães, Póvoa de Varzim, Porto, Santa Maria da Feira, Marinha Grande, Quarteira, Castelo Branco e Évora. Estiveram também presentes elementos das agências mais próximas, do Lumiar e de Belém.
Teresa Branco, da coordenação nacional do Banco de Tempo, deu as boas-vindas a todas as pessoas, depois das palavras acolhedoras das anfitriãs, Filipa Barros e Mariana Pereira. Ambas fizeram um balanço muito positivo da agência da Biblioteca de Belém, que celebrará em breve o seu primeiro aniversário, e sublinharam as possibilidades que o Banco de Tempo tem aberto de aproximação, participação e abertura à comunidade.
Houve também um momento musical, com Carla Louro, membro da agência do Banco de Tempo da Biblioteca de Belém, que interpretou ao piano pequenas peças de um repertório variado, acrescentando beleza ao nosso Encontro.
Neste encontro, que teve no seu centro o tema do cuidado coletivo, tivemos a possibilidade de escutar duas jovens mulheres: Elsa Nogueira, mestre em Estudos sobre as Mulheres, doutoranda em Estudos de Género e participante do Graal e do Banco de Tempo, e Marta Vences, mestre em Paz, Conflitos e Desenvolvimento, atualmente estudante de Psicologia, mentora pedagógica numa escola secundária e membro da Associação Próxima Geração, que conhecemos através do artigo que escreveu para o Expresso, com o título “Não precisamos de mais self-care. Precisamos uns dos outros.”
Elsa Nogueira propôs uma reflexão sobre o cuidado e sobre o seu “potencial verdadeiramente transformador, quando vivido e organizado coletivamente”. Sublinhou que, num sistema marcado por desigualdades, violências e opressões, “convém que vivamos isoladas/os” e que acreditemos que os nossos problemas são exclusivamente individuais, quando muitos deles são sistémicos. Defendeu que “priorizar o cuidado é recusar-nos ao abandono” e sustentou que a nossa sobrevivência e prosperidade existem no coletivo. Apresentou ainda o Banco de Tempo como uma iniciativa que põe em prática “o verdadeiro sentido do cuidado coletivo”.
Marta Vences refletiu sobre a popularização do “self-care”, defendendo que este contribuiu para normalizar a conversa sobre saúde mental, emoções e terapia, mas que tem sido muitas vezes capturado por lógicas individualistas e mercantilizadas. Sublinhou que problemas como a ansiedade, a depressão, a solidão ou o burnout não podem ser compreendidos apenas como questões individuais, porque estão ligados a fatores estruturais como a precariedade, a desigualdade, a discriminação e a falta de redes de apoio. Neste contexto, valorizou a importância do cuidado coletivo, que muitas vezes se torna mais visível em momentos de catástrofe e quando o Estado falha. A oradora valorizou ainda as relações de amizade, frequentemente vistas como “vínculos menores” numa cultura que coloca o amor romântico e a relação de casal no centro da vida afetiva, o que pode conduzir a algum isolamento e ao enfraquecimento de outros vínculos fundamentais de apoio.
Depois destes interessantes contributos, os e as participantes trabalharam em pequenos grupos, procurando encontrar respostas para questões relacionadas com o reforço de uma cultura do cuidado no Banco de Tempo e para as dificuldades que enfrentamos nesse processo.
O almoço foi servido ao ar livre pelo Café Solidário da Associação Corações com Coroa. O atendimento foi delicado e acolhedor, e a refeição estava deliciosa. Houve também cantares, como acontece espontaneamente nestes encontros, e desta vez tivemos o gosto de ouvir a encantadora voz da Ema Alraee, que, com os seus 10 anos, enfrentou um público adulto.
Na sequência da apresentação das conclusões dos grupos, Carla Martins e Mariana Pereira apresentaram a nova plataforma de gestão de dados do Banco de Tempo.
Houve ainda tempo para falar dos 25 anos do Banco de Tempo em Portugal, que serão celebrados no próximo ano. Recolheram-se pareceres sobre as propostas apresentadas, bem como contributos e sugestões. Daremos continuidade a este processo, para que esta data “redonda” seja uma oportunidade de refletir e aprender com o nosso percurso, projetar o futuro e dar a conhecer o Banco de Tempo a um público mais amplo.
Foi um dia feliz e frutífero, como costuma acontecer quando se reúnem pessoas que têm sonhos para um mundo melhor e um coração generoso.